A VARIANTE RÓTICA RETROFLEXA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: UMA CAMINHADA PELA LINGUÍSTICA HISTÓRICA

  • Victor Carreão UNICAMP

Resumo

Os róticos no Português Brasileiro são objeto de pesquisa em diferentes estudos, ora sociolinguísticos, ora acústicos. Dentre suas muitas formas variantes, observa-se a retroflexa (popularmente conhecida como o "erre puxado") associada a um universo mais "caipira", embora possa ser encontrada em diferentes regiões do território brasileiro, podendo ser observada, também, em falantes de grandes centros urbanos. Outra característica deste –r interiorano seria seu apagamento ao ocorrer em posição final de palavras (AMARAL, 1920), fenômeno muito observado nos verbos no infinitivo, mas cuja ocorrência também poderia apresentar alta frequência em outras classes de palavra. Estes fenômenos fonéticos associados aos róticos em posição de coda silábica também puderam ser observados em determinadas variantes do Espanhol Paraguaio, ainda que haja pouco registro sobre suas ocorrências. Tal observação faz com que a realização retroflexa de –r seja pensada, mais uma vez, sob a hipótese do contato linguístico entre colonizadores europeus e índios brasileiros, uma vez que as línguas Tupi e Guarani, de índios que habitavam as regiões brasileira e paraguaia, respectivamente, adviriam de um ancestral comum (RODRIGUES, 1945), o que poderia auxiliar a justificar as ocorrências da retroflexão - ainda que em diferentes graus - e apagamento final de –r atualmente vistos tanto no Brasil como no Paraguai. As interações na época da colonização do Brasil levaram à criação da língua-geral, resultado do contato entre portugueses e indígenas, e, assim, a realização dos róticos, que, para os Tupis e Guaranis, era de forma simples e sem ocorrência em posição de coda silábica, passou a ocorrer em posições silábicas não comuns aos indígenas. Este contexto linguístico poderia ter impulsionado a mudança linguística da realização de /r/, fenômeno que teria seu espalhamento pelo território brasileiro, possivelmente, com o início da "corrida do ouro", no século XVII, e a migração de indígenas, mestiços e ex-escravos para áreas mais interioranas do país.


ABSTRACT: The rhotics in Brazilian Portuguese are object of research in different studies, sometimes sociolinguistic or acoustic. Among its many variant forms, it is observed the retroflex one (commonly known as a "strong -r") associated to a "caipira" universe, although it can be found in different regions of the Brazilian territory, and also be observed in speakers of large urban centers. Another characteristic for this "countryside -r" would be its deletion whenever it occurs in final-word position (AMARAL, 1920), a phenomenon that is very observed in verbs in the infinitive tense, but whose realization could be presented in high frequency in other word classes as well. These phonetic phenomena associated to rhotics in syllable coda could also be observed in determined Paraguayan Spanish dialects, although few records have been made about them. Such an observation makes the retroflex realization of -r to be thought, once more, under the light of the linguistic contact hypothesis between European colonists and Brazilian Indians, as Tupi and Guarani languages, from native indigenous population living in Brazilian and Paraguayan regions, respectively, would come from a common ancestor (RODRIGUES, 1945), which would help in justifying retroflex occurrences - even in different degrees - and the final deletion of -r currently seen both in Brazil and Paraguay. The interaction that took place back in Brazil's colonial times led to the creation of the língua-geral, resulting from the contact between the Portuguese and the indigenous populations, and, thus, the rhotics occurrences, which, for the Tupis and Guaranis, was simple and with no occurrence in syllable coda, started occurring in syllable positions with which the indigenous populations were not used to. This linguistic context could have driven a linguistic change in the realization of /r/, a phenomenon that would have spread throughout the Brazilian territory, possibly, with the beginning of the "gold rush", in the seventeenth century, and the migration of Indians, mestizos and former slaves to more inland areas of the country.


 KEYWORDS: Rhotics; Retroflexion; Linguistic Contact.

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Mestrando em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas. E-mail: vcarreao@yahoo.com.br

Publicado
2017-10-16
Como Citar
CARREÃO, Victor. A VARIANTE RÓTICA RETROFLEXA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: UMA CAMINHADA PELA LINGUÍSTICA HISTÓRICA. Web Revista SOCIODIALETO, [S.l.], v. 7, n. 20, p. 84 - 118, out. 2017. ISSN 2178-1486. Disponível em: <http://sociodialeto.ojs.galoa.com.br/index.php/sociodialeto/article/view/10>. Acesso em: 17 nov. 2017.